Em Portugal, as doenças metabólicas afetam milhões de pessoas e constituem uma das principais causas de internamento hospitalar e mortalidade prematura. Diabetes, hipertensão arterial, colesterol elevado e triglicéridos elevados são condições silenciosas, mas controláveis.
Este guia explica o que são, como se detetam e, acima de tudo, como viver bem com elas.
- Controlo da diabetes mellitus
- Hipertensão arterial
- Colesterol elevado (hipercolesterolemia)
- Triglicéridos elevados (hipertrigliceridemia)
- Perguntas frequentes
1. Controlo da Diabetes Mellitus
Tipo 1, tipo 2 e diabetes gestacional
A diabetes mellitus é uma doença crónica caracterizada por níveis elevados de glicose no sangue (hiperglicemia), resultante de falhas na produção ou na ação da insulina. Em Portugal, é considerada uma epidemia silenciosa: segundo o Observatório Nacional da Diabetes, mais de um milhão de portugueses vivem com esta condição.
Dados relevantes:
- em dados de 2021, a prevalência da diabetes era de 14,1%.
- 13,6% da população adulta portuguesa com diabetes
- 1 em 3 pessoas diabéticas não sabe que tem a doença
- a faixa etária mais afetada é a dos +60 anos
Como se manifesta e como se diagnostica?
A diabetes tipo 2, a mais comum, representando cerca de 90% dos casos, desenvolve-se lentamente e pode passar anos sem sintomas. Os sinais de alerta mais frequentes são sede excessiva, urinar com frequência, visão turva, cansaço persistente e cicatrização lenta de feridas. O diagnóstico faz-se através de análises ao sangue em jejum (glicemia em jejum ≥126 mg/dL) ou pela hemoglobina glicada (HbA1c ≥6,5%).
Recomendação Medilav
O rastreio da diabetes deve ser realizado a partir dos 45 anos ou antes, caso existam fatores de risco como obesidade, histórico familiar ou sedentarismo.
Estratégias de controlo eficaz
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- Monitorização regular da glicemia: o controlo domiciliário permite ajustar medicação e alimentação em tempo real.
- Alimentação mediterrânica: predomínio do consumo de alimentos de origem vegetal, nomeadamente, a fruta, os produtos hortícolas, os cereais integrais, os tubérculos, os frutos oleaginosos, as leguminosas e o azeite. Fale com a nossa nutricionista.
- Atividade física regular: pelo menos 150 minutos por semana de exercício moderado melhora a sensibilidade à insulina.
- Adesão à medicação: metformina, inibidores SGLT-2 e análogos GLP-1 são opções disponíveis no SNS com comparticipação
- Consultas regulares: oftalmologia, nefrologia e podologia para prevenir complicações como retinopatia, nefropatia e pé diabético
2. Hipertensão Arterial
O “assassino silencioso” mais prevalente
A hipertensão arterial define-se por valores de pressão arterial sistólica iguais ou superiores a 140 mmHg e/ou diastólica igual ou superior a 90 mmHg, em medições repetidas. É chamada de “assassino silencioso” porque, na maioria dos casos, não provoca qualquer sintoma, até que o coração, os rins ou o cérebro já sofreram danos significativos.
Portugal, a prevalência é das mais elevadas da Europa Ocidental. O sal em excesso na dieta portuguesa é apontado como um dos principais fatores ambientais que contribuem para esta realidade. Quer saber como melhorar a sua alimentação? Fale com a nossa nutricionista.
Valores de referência e categorias
| Categoria | Sistólica | Diastólica |
|---|---|---|
| Ótima | < 120 | < 80 |
| Normal | 120-129 | 80-84 |
| Normal alta | 130-139 | 85-89 |
| Hipertensão grau 1 | 140-159 | 90-99 |
| Hipertensão grau 2 | 160-179 | 100-109 |
| Hipertensão grau 3 | ≥ 180 | ≥ 110 |
| Hipertensão sistólica isolada | ≥ 140 | < 90 |
Como controlar a pressão arterial
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- Reduzir o sódio: o objetivo é menos de 5g de sal por dia; evitar alimentos processados, enlatados e enchidos
- Dieta Mediterrânica ou Dieta DASH: diminuição do consumo de sal, gordura (saturada e “trans”), açúcar, carnes vermelhas e álcool e aumento do consumo de hortofrutícolas, leguminosas, cereais integrais e laticínios com menor teor de gordura
- Exercício físico regular: optar preferencialmente por exercício aeróbio (corrida, ciclismo, caminhada) devendo ser suplementado com exercícios de resistência/força, que levem a aumento da força e massa muscular (flexões, agachamentos, pesos).
- Evitar o consumo de álcool
- Medicação anti-hipertensora: inibidores da ECA, bloqueadores dos recetores da angiotensina (ARA) e diuréticos tiazídicos estão comparticipados pelo SNS
3. Colesterol elevado
LDL, HDL e o risco cardiovascular
Dados relevantes:
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52% dos adultos em Portugal têm colesterol elevado
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50% nunca foram diagnosticados
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x3 maior risco de enfarte com LDL elevado
O colesterol é uma gordura essencial ao organismo, mas quando em excesso, especialmente o LDL (“mau colesterol”), deposita-se nas paredes das artérias, formando placas ateromatosas que podem causar enfarte do miocárdio e acidente vascular cerebral (AVC). A hipercolesterolemia é silenciosa e só detetável através de análises ao sangue.
Em Portugal, recomenda-se que os adultos saudáveis mantenham o LDL abaixo de 115 mg/dL. Para pessoas com doença cardiovascular estabelecida ou diabetes, o alvo é ainda mais exigente: LDL inferior a 70 mg/dL (ou mesmo 55 mg/dL em casos de alto risco).
Diferença entre LDL e HDL
O HDL (“bom colesterol”) funciona como uma espécie de “varredura” das artérias — transporta o excesso de colesterol para o fígado para ser eliminado. Valores baixos de HDL (abaixo de 40 mg/dL nos homens e 50 mg/dL nas mulheres) são, por si só, um fator de risco cardiovascular independente.
Sabia que?
A hipercolesterolemia familiar é uma condição genética que afeta cerca de 1 em cada 300 portugueses e provoca valores de LDL muito elevados desde a infância. O diagnóstico precoce é essencial e a cascata familiar é obrigatória.
Estratégias de redução do colesterol
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- Reduzir gorduras saturadas e trans: substituir manteiga por azeite, carnes gordas por peixe e leguminosas
- Aumentar a fibra solúvel: aveia, feijão, lentilhas e maçã reduzem ativamente a absorção intestinal de colesterol
- Fitoesteróis: presentes em margarinas enriquecidas e iogurtes funcionais, comprovadamente reduzem o LDL em 10–15%
- Estatinas: o tratamento farmacológico mais eficaz; a sinvastatina e a atorvastatina estão amplamente disponíveis e comparticipadas no SNS
- Exercício físico: aumenta o HDL e melhora o perfil lipídico global
4. Triglicéridos Elevados
Hipertrigliceridemia e o papel da dieta
Os triglicéridos são a principal forma de armazenamento de energia no organismo. Valores elevados de triglicerídeos (hipertrigliceridemia) pode resultar de uma alimentação desequilibrada com aporte calórico excessivo, rica em hidratos de carbono simples e gorduras saturadas, sedentarismo, alcoolismo e/ou doenças (síndrome metabólico, obesidade, diabetes mellitus, hipotiroidismo, doença renal, doença hepática, lúpus eritematoso sistémico). São também um fator de risco independente para doenças cardiovasculares.
Dados relevantes:
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>150 mg/dL é o limiar de alerta
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>500 mg/dL aumenta o risco de pancreatite aguda
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30% dos portugueses com valores acima do normal
Os principais vilões
Os principais responsáveis pelo aumento dos triglicéridos são o consumo de álcool e o consumo de alimentos ricos em açúcar e gorduras.
Como normalizar os triglicéridos
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- Manter um peso saudável
- Evitar o consumo de álcool
- Optar por alimentos ricos em fibra
- Evitar o consumo de gorduras saturadas
- Dieta Mediterrânica e/ou DASH
- Uso de suplementos de ómega 3 (EPA+DHA) apenas sob recomendação de um profissional de saúde
Fale com a nossa nutricionista.
5. Perguntas Frequentes
Posso ter diabetes, hipertensão e colesterol elevado ao mesmo tempo?
Sim. Esta combinação, associada à obesidade abdominal, configura o quadro de síndrome metabólica, uma condição com elevada prevalência em Portugal. O sucesso do tratamento reside na intervenção integrada: em articulação o médico de família, a inclusão de um nutricionista no plano de cuidados é fundamental para reverter os indicadores metabólicos através de uma reeducação alimentar estruturada.
As doenças metabólicas têm cura?
Através de uma intervenção rigorosa no estilo de vida, focada na reeducação alimentar, no exercício e na gestão do peso, é possível normalizar os indicadores de saúde e, em muitos casos, eliminar a necessidade de medicação.
No entanto, embora possa ocorrer a remissão da doença, a predisposição do organismo mantém-se. O sucesso a longo prazo depende da manutenção dos novos hábitos, uma vez que o regresso aos comportamentos anteriores fará com que os desequilíbrios metabólicos e os riscos associados reapareçam.
O SNS comparticipa os medicamentos para estas doenças?
Sim. Portugal tem uma das melhores comparticipações da Europa para medicamentos de doenças crónicas. Metformina, estatinas, inibidores da ECA e muitos anti-hipertensores têm comparticipação de 69% a 100% para doentes com prescrição ativa.
Com que frequência devo fazer análises de controlo?
Para doentes controlados e estáveis, recomenda-se análises de rotina de 6 em 6 meses a 1 ano. Para doentes com ajuste recente de medicação ou valores descompensados, o médico pode indicar controlo mais frequente (3 em 3 meses).
Crianças e jovens também podem ter estas doenças?
Sim. A diabetes tipo 1 é mais comum em crianças e jovens. A hipercolesterolemia familiar também se manifesta desde a infância. Com o aumento da obesidade infantil em Portugal, a diabetes tipo 2 e a hipertensão estão a surgir cada vez mais cedo.
